A prefeitura

 

Um grande homem se tornou prefeito da maravilhosa cidade de Lugar Nenhum, com 10 mil habitantes. O prefeito é um amor de pessoa. Competente, honesto e corajoso. Um verdadeiro herói dos tempos modernos. O governo estadual lhe repassa um milhão de dinheiros por mês e com sua habilidade de manejar as contas públicas, criou duas maravilhas: Uma escola pública de qualidade e um belíssimo hospital.

Só que Lugar Nenhum faz divisa com Filhadaputopólis, de 100 mil habitantes, e Nova Caralhinhos, com 50 mil. Ora, tendo um bom hospital de graça a 15km, quem vai querer ficar nos hospitais ruins dessas duas cidades? Todo mundo das cidades vizinhas foram conhecer aquelas belíssimas construções e a população da região se sentia confiante que agora a grande República do Bananal iria finalmente se desenvolver. Agora vai meu fí!

O hospital e a escola começaram a ter muitas pessoas para atender, porque a cidade é muito pequena para atender as vizinhas. A prefeitura expande como pode, mas ela não tem o direito de recusar atendimento. Os médicos agora precisam fazer plantões quase todos os dias, trabalham cansados. Os professores também sofrem muito. O prefeito tenta conversar com os seus funcionários, fez verdadeiras mágicas com a contabilidade, mas a situação ainda está complicada.

filas

Com tanta gente e sem ter como fiscalizar, a corrupção começa com um sorriso, uma enfermeira sendo gentil com um paciente. Um mês depois, ela aceita um cafezinho e em poucos meses, só é bem atendido quem pagar propina. O prefeito até queria demitir esses corruptos, mas ele precisa de médicos pro hospital funcionar.

A escola também não vai muito bem. Muitos professores estão tirando atestado por estresse, afinal quem suporta turmas com 70 alunos?  Muita gente está reclamando também porque a diretora deu um jeito para colocar a filha da dona Zefa, sua vizinha. Mas se demitir a diretora, quem vai organizar os horários dos professores?

O prefeito desistiu de tentar trabalhar sozinho, engoliu o orgulho e foi falar com o pessoal do governo federal. Mas ouviu um “isso ai é problema do governo estadual”. Só que enquanto ele foi falar com o governador, descobriu que existiria um corte de verba, porque as cidades vizinhas precisam de mais verba e Lugar Nenhum está com saúde e educação melhor que as outras então poderia ser um pouco prejudicada.

Injustiça? Talvez, mas o governador só está fazendo seu trabalho. O assessor levou as estatísticas pra ele e pediu uma decisão. “Mas governador, venha conhecer a cidade que eu te explico”, balbuciou o prefeito, mas não daria, o governador até queria, mas ele estava preocupado em resolver os problemas do estado dele e dos três estados vizinhos. Com 50 mil pessoas pobres imigrando pro estado por ano, quem vai se preocupar com uma cidade de 10 mil que tem um pouco de fila no hospital?

Com o corte da verba, o prefeito foi obrigado a fazer demissões. O enorme fluxo de pessoas no hospital, com atendimentos em corredores, cirurgias quase sem descanso desgastaram toda a estrutura antes do tempo. O prefeito precisou, ainda, cortar a qualidade do material usado. Funcionários mal pagos, greves, gente pedindo demissão porque o prefeito de Filhadaputopólis arranjou uns cargos de confiança com o dinheiro que Lugar Nenhum perdeu. Afinal, dinheiro do governo vem de um poço e nunca acaba, que mal tem pegar um cargo sem trabalhar?

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Mas esse cara é competente, só foi um injustiçado. A saúde e a educação estão um caos, mas como governador ele pode consertar isso tudo, não é? Infelizmente, os estados tem suas divisas também e ao conversar com o governador, percebeu isso. Infelizmente, para esse tipo de gente honesta, só é possível começar a resolver algo como presidente, porque o presidente pode fechar suas fronteiras.  E se não fechasse, teria que atender os países vizinhos também e ai só se tornando o dono do mundo. Mas na sorte do prefeito, corre risco de surgirem alienígenas.

Está acabando o mandato e os ar-condicionados da escola estão desligados por causa do custo da energia. A máquina de raio-x foi tão utilizada que quebrou. Quando adoeceu, o povo só viu corredores lotados e a farmácia sem remédios. Quando foi matricular o filho em janeiro, as vagas esgotavam as 3h da manhã do primeiro dia de matrícula. É um desastre eleitoral.

Por puro milagre, o prefeito se reelegeu, mas dessa vez ele aprendeu sua lição. A escola e o hospital, nesse novo ano, estão quase sem filas, porque ninguém mais quer ir pra lá, quase não tem médicos, virou um posto de saúde qualquer. Os seus habitantes são maltratados pelas enfermeiras, mas pelo menos conseguem algum paracetamol na farmácia. A escola está sem professor de física e biologia, mas pelo menos todos as crianças de Lugar Nenhum tem como ir pra escola.

É, caro prefeito, melhor deixar esses seus sonhos para quando o senhor se tornar Presidente da República. Só tomara que sua alma sonhadora não adoeça do mal da corrupção e do comodismo até lá, porque caso o senhor não se lembre, não tem como te dar o tratamento porque a UTI do teu hospital tá fechada pra uma reforma que nós sabemos que nunca vai acabar.

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