O sangue maldito

Era nove e meia da manhã. O sinal toca e Paulo sai da sala. Paulo, ou Paulo Rogério como os seus professores o chamavam, era uma pessoa normal, ou quase. Era um aluno muito aplicado e inteligente. Ele saia apressadamente da sala, pois queria relaxar em um banco e ler o livro que carregava.
Na capa do livro tinha em letras garrafais os números 1984. Era um livro muito legal, principalmente porque ele gostava de ler. Ele lia o tempo todo, afinal não tinha amigos. Mas apesar de todas as diferenças, Paulo era uma pessoa normal e como toda pessoa normal tinha um segredo.

O segredo dele era algo que naquele momento poderia estragar sua vida caso fosse revelado. Na verdade a revelação não só poderia estragar sua vida como o fez. No momento que ele levanta o rosto para relaxar um pouco os olhos, leva um soco no rosto e cai no chão.
Alguns colegas dele começam a espanca-lo. o resto da universidade começa a chama-lo de bicha e aplaudem os espancadores. Umas 20 garotas estão reunidas falando de como isso era possivel. Uma garota dizia que o jeito magro e frágil dele sem falar em sua educação exacerbada entregavam que era de banana que ele gostava.
Enquanto apanhava e urrava cospindo sangue, Paulo pensava no motivo de estar apanhando. Afinal ele não tinha escolha, ele nascera assim e não tinha nenhuma culpa. Tudo que podia fazer era esconder isso e nem disso foi capaz. O melhor a se fazer era desmaiar e esperar a morte dormindo.
Acorda com uma luz forte em seus olhos. Percebe que está no hospital. Já não sente tanta dor como outrora, mas o calendário mostra que ele dormiu por 3 dias. Ele espera João, que era até algum tempo o médico que sabia do segredo de Paulo. Talvez as mentes mais diabólicas e as linguas mais afiadas dissessem que ele era o namorado de Paulo. João chega com a mãe de Paulo, que está chorando de remorso.
Dona Edna, cujo o verdadeiro nome era Ednascreuza, foi abandonada gravida pelo ex-marido que a pegou na cama com outro. Talvez fosse a promiscuidade da dona Edna a culpa de Paulo ser assim. Paulo recebeu alta, assim como as outras vezes que foi internado naquele mesmo hospital. hospital que Paulo nunca mais voltou.
As 3 da manhã enquanto todos os seus agressores dormiam, enquanto dona edna chorava, Paulo pegou uma faca na cozinha e se matou. E aquela cena era o maior contraste conhecido onde o caixão branco se misturava ao preto do luto.
Se ele estivesse 10 anos depois, no 3° milenio, ao invés de morto ele tomaria um coquetel e iria dormir. Acordaria pronto para ir mais seus amigos na livraria. Mas ninguém esquecerá de seu caixão branco e da vergonha que todo ser Humano carrega dos milhares de paulos que tivemos e ainda temos ao redor do mundo. A vergonha de que o preconceito da sociedade o matou antes da Aids.

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